Pós-meditação

Algumas pessoas pensam que, se meditarem por quinze minutos a cada dia, deverão se iluminar em uma semana e meia. Mas as coisas não funcionam assim. Mesmo se você meditar, rezar e contemplar durante uma hora por dia, isso representa uma hora em que você medita contra 23 em que não medita. Quais seriam as chances de uma pessoa contra 23 em um cabo-de-guerra? Um puxa para um lado e 23 para o outro — quem vai ganhar?

Não é possível mudar a mente com uma hora de meditação diária. Você tem que prestar atenção a seu processo espiritual ao longo de todo o dia, enquanto trabalha, joga, dorme; a mente precisa estar sempre se direcionando para a meta final da iluminação.

Quando você estiver imerso nas coisas do mundo, conserve sua mente naquilo que está fazendo. Se estiver escrevendo, mantenha a mente no tracejar da caneta. Se estiver costurando, concentre a mente em cada ponto. Não se deixe distrair. Não pense em cem coisas ao mesmo tempo. Não fique viajando no que aconteceu ontem ou no que pode acontecer no futuro.

Não importa tanto o que você esteja fazendo, desde que concentre a mente e fique com aquilo que se propõe a fazer. Permaneça junto da tarefa, procurando estar confortável em relação ao que está fazendo e, desse modo, você treinará a mente.

Sempre se observe de forma minuciosa, reduza os pensamentos, palavras e comportamentos negativos, e aumente aqueles que são positivos. Pense com cuidado e constantemente refaça seu foco, pois você pode ficar com a mente nublada com muita facilidade. O que a meditação produz é um constante ajuste do foco. Você tem que trazer de volta a intenção pura, vez após vez. E então, relaxe a mente para permitir um reconhecimento direto e sutil daquilo que está além de todo o pensamento.

Chagdud Tulku Rinpoche (Tibete, 1930 – Brasil, 2002)
Portões da Prática Budista, parte 2

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Apontar nossos próprios erros

[...] Então, em termos de erros, devemos nos voltar para nós mesmos, porque apontar erros nos outros é a nossa própria desgraça. Sua Santidade o Dalai Lama com frequência faz distinção entre conduta digna e indigna. Apontar erros nos outros é indigno.

Em termos de virtude e desvirtude, procurar falhas nos outros e difamá-los é desvirtude. Praticantes do Dharma que fazem isso estão abrindo mão de seus votos de refúgio, assim como da religião que seguem.

[...] Em todo caso, isso é uma desgraça. Tão logo começamos a apontar para outras pessoas dizendo: “Você não deve fazer isso”, já fomos longe demais. Se quisermos encontrar erros, que encontremos em nós mesmos, trabalhando em nós mesmos.

Gyatrul Rinpoche (China, 1924 ~)
“Natural Liberation”, parte 2 | 3

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Preocupação com nossa reputação

Dilgo Khyentse Rinpoche

Dilgo Khyentse Rinpoche

Então, lembre-se que se você tem boa ou má reputação, ela não tem nenhuma realidade objetiva. Não vale a pena se preocupar com isso. Os grandes mestres do passado jamais se incomodaram com isso. Eles sempre responderam à calúnia e depreciação com bondade e paciência.

Langri Thangpa foi um mestre assim. Uma vez, na região da caverna onde ele estava meditando, havia um casal cujos filhos sempre morriam novos. Quando outra criança nasceu, eles consultaram um oráculo, que disse que o bebê só iria sobreviver se eles afirmassem que se tratava de um filho de um mestre espiritual.

Assim a mulher levou o bebê até a caverna de Langri Thangpa e o deixou na frente do sábio. Ela disse: “Aqui está seu filho”, e foi embora. O renunciante não disse nada além de pedir para uma mulher devotada que conhecia para alimentar e cuidar da criança.

Obviamente, sendo Langri Thangpa um monge, a fofoca se espalhou de que ele havia sido pai de uma criança. Alguns anos depois, os pais do garoto voltaram com extensas oferendas e respeitosamente lhe disseram: “Por favor nos perdoe. Embora você não tenha cometido nenhum erro, nós permitimos que os rumores se espalhassem. A criança sobreviveu apenas devido à sua bondade”. Sereno como sempre, Langri Thangpa devolveu o garoto aos pais sem dizer uma palavra.

Algumas pessoas gastam toda sua energia, e até arriscam suas vidas, para alcançar fama. Fama e notoriedade não são nada mais que um eco vazio. Sua reputação é uma miragem atrativa que pode facilmente te desencaminhar. Descarte-a sem pensar duas vezes, como a sujeira que você tira do nariz.

Dilgo Khyentse Rinpoche (Tibete, 1910 – Butão, 1991)
“The Heart of Compassion”, v. 14 (comentário sobre as “37 Práticas do Bodisatva”)

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Poucos princípios para praticar

Não há muitos princípios fundamentais, da raiz, do dharma. O Buda disse que seu ensinamento cabe em “uma única mão cheia”. Uma passagem no Samyuta-nikaya deixa isso claro.

Ao caminhar pela floresta, o Buda pegou um punhado de folhas caídas e pediu aos monges presentes para decidirem qual era a quantidade maior, as folhas em sua mão ou as folhas na floresta.

Claro que todos disseram que eram as flores da floresta, que a diferença estava além da comparação. Tente imaginar a verdade dessa cena, claramente visualize a imensa diferença que há.

O Buda então disse que, de modo similar, as coisas que ele compreendeu somavam uma grande quantidade, igual às folhas na floresta. Contudo, aquilo que era necessário saber, as coisas que deveriam ser ensinadas e praticadas, eram iguais ao número de folhas em sua mão.

Buddhadasa Bhikkhu
Tricycle, inverno de 1996 (Tricycle’s Daily Dharma, 06/11/2009)

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União da meditação e pós-meditação

Dilgo Khyentse Rinpoche

Dilgo Khyentse Rinpoche

No momento, a claridade natural de sua mente está obscurecida por ilusões. Mas ao passo que esse obscurecimento se dissolve você irá começar a descobrir a radiância do estado desperto, até que você alcança o ponto em que, assim como um desenho na água desaparece no momento em que é feito, seus pensamentos serão liberados no momento que surgem.

Experimentar a mente dessa maneira é encontrar a própria fonte do Estado Búdico, a prática da quarta iniciação. Quando a natureza da mente é reconhecida, isso é chamado de nirvana; quando está obscurecida pela ilusão, é chamada de samsara — embora tanto samsara quanto nirvana jamais tenham se afastado do continuum do absoluto.

Quando a realização do estado desperto chega à sua extensão máxima, as defesas da ilusão terão sido comprometidas e a fortaleza do Dharmakaya além da meditação poderá ser tomada de uma vez por todas. Aqui não há mais distinção entre meditação e pós-meditação, e a experiência é estabilizada sem esforço — isso é não-meditação. […]

Dilgo Khyentse Rinpoche (Tibete, 1910 – Butão, 1991)
“The Heart Treasure of The Enlightened Ones”, v. 43

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Vacuidade da acumulação de mérito e sabedoria

A iluminação é alcançada através das duas acumulações, que são como aparições: aparecem mas não têm existência própria. O Bhadramāyākāra-pariprcchā sutra diz:

Ao realizar a acumulação que é como sonho,
A pessoa alcança iluminação de sonho.
Para o bem de seres como sonhos
A pessoa executa serviços de sonho.

Longchenpa (Tibete, séc. XIV)
Comentário sobre o “Repouso na Natureza da Mente” (shing ta chen po)

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Tomar o futuro em nossas mãos

Agora é o momento de nos libertarmos do samsara. A menos que façamos nesta vida, isso não vai acontecer por si mesmo. Temos que tomar conta de nós mesmos. Agora mesmo temos a habilidade de receber ensinamentos e praticar o Dharma. Não é a hora certa? Isso não seria melhor do que continuar agindo como um animal, se concentrando apenas em comer, dormir e deixar o tempo passar? Por que não tomar o futuro em suas próprias mãos?

Tulku Urgyen Rinpoche (Tibete, 1920 — Nepal, 1996)
Tricycle, outono de 2001 (Tricycle’s Daily Dharma, 5/10/2009)

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Proteção da disciplina

Shantideva

O indiano Shantideva (séc. VII)

Então irei assumir o controle
E proteger bem esta mente.
De que me servem várias disciplinas,
Se não puder guardar e treinar minha mente?
O Caminho do Bodisatva, 5 | 18 (Shantideva, Índia, séc. VII)

Todas as tristezas e medos desta vida e das futuras, assim como todos os méritos e virtudes, surgem da mente. Devemos, então, ao aplicar o estado desperto (em outras palavras, não esquecer os princípios sobre o que adotar e o que rejeitar), tomar posse de nossas mentes, protegendo-as bem com introspecção vigilante, repetidamente examinando nosso comportamento físico e mental.

Todos os treinamentos estão contidos nesse esforço. Todas as disciplinas — tanto dos iogues de cabelos longos e mantos brancos quanto dos monges de açafrão — devem ser um instrumento para proteger a mente com um sentido de consciência moral, tanto em relação a si mesmo quanto aos outros.

De outro modo, qual o sentido das inúmeras disciplinas árduas, de vestir os mantos brancos e amarrar as tranças, ou de usar vestes cor de açafrão? São todas sem sentido.

Kunzang Pelden (Tibete, 1872-1943)
“The Nectar of Manjushri’s Speech”

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Sabedoria da vacuidade

Sabedoria, que é chamada de a mãe dos budas, nada mais é do que a compreensão da vacuidade. Esse é o grande segredo do despertar. Todos os budas nascem dessa percepção, pois somente a sabedoria da vacuidade pode dar nascimento à iluminação.

Sabedoria é a experiência direta e transformadora da realidade da vacuidade em nossas próprias vidas. É a certeza viva de que nada existe como uma entidade separada da forma como normalmente acreditamos.

Francesca Fremantle
“Vazio Luminoso”, cap. 2

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Confusão e realização

Chokyi Nyima Rinpoche

Chokyi Nyima Rinpoche

Há basicamente duas possibilidades: ou a pessoa é realizada ou está confusa. Se alguém é realizado, então é um buda; se está confuso, é um ser senciente.

Quais são os benefícios e motivos para concretizar a visão livre de erros? Ser realizado significa que a pessoa já compreendeu a não-existência do ego, então o apego ou fixação em uma entidade própria desmorona. Assim, tudo que está ligado a isso — as emoções perturbadoras e ações cármicas que impelem alguém a continuar no samsara — cessa.

Realização significa que a pessoa é libertada do samsara e, ao mesmo tempo, é dotada com muitas sublimes qualidades iluminadas. Uma pessoa iluminada ou realizada se torna um exemplo daquilo ao qual outras pessoas podem aspirar, respeitar e aprender. É por isso que as Três Jóias são consideradas algo para se tomar refúgio, são objetos dignos de confiança.

Por outro lado, seres confusos, não-realizados ou que estão segurando a noção de um ego, consequentemente, irão provocar o surgimento de emoções perturbadoras e ações cármicas, criando assim sofrimento a ser vivenciado nos diferentes reinos da existência samsárica.

Refletindo sobre isso, não podemos evitar sentir compaixão. Todos os fenômenos do samsara e nirvana são, de modo último, primordialmente e inteiramente puros. No estado natural da essência, não há coisas como nascimento, vida, morte, alegria, tristeza e tudo mais. Não é preciso dizer mas, de modo último, mesmo essas palavras são completamente não existentes.

Todos os seres sencientes estão iludidos. Eles não se dão conta do estado natural da vacuidade, livre de fabricação, além do surgimento, permanência e cessação. Suas mentes são capturadas pela fixação, eternamente aprisionadas nessa experiência dualista vazia. Pensando nisso, não podemos evitar de sentir compaixão pelos seres que vagam pelo samsara.

Chokyi Nyima Rinpoche (Tibete, 1951~)
“Bardo Guidebook”

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