Talvez a mais profunda razão pelo qual temos medo da morte é porque não sabemos quem somos. Acreditamos em uma identidade pessoal, única e separada – mas se ousarmos examiná-la, descobriremos que essa identidade depende inteiramente de uma coleção sem fim de coisas: nosso nome, nossa “biografia”, nossos parceiros, família, lar, emprego, amigos, cartões de crédito… É no suporte frágil e transitório dessas coisas que confiamos nossa segurança. Então, quando elas são retiradas, teremos alguma idéia de quem realmente somos? Sem nossos suportes familiares, ficamos cara-a-cara com nós mesmos, uma pessoa que não conhecemos, um incômodo estranho com quem estivemos vivendo todo o tempo mas que nunca realmente quisemos encontrar. Não é por causa disso que ficamos tentando preencher cada momento com barulho e atividade, tanto triviais quanto enfadonhos, para garantir que nunca sejamos deixados sozinhos em silêncio com esse estranho?
Vivendo com um estranho
Sogyal Rinpoche, “O Livro Tibetano do Viver e do Morrer”. Tradução da newsletter Tricycle’s Daily Dharma, de 13 de Agosto, 2006.