Deus no budismo

O Buda, muito longe de negar que havia um Absoluto, garantiu que aqueles que alcançassem a iluminação deveriam se fundir com Isso e assim perceber a Realidade em oposição ao mundo das ilusões e dos fenômenos. O que ele realmente disse, contudo, que tem levado pessoas a acusarem-no de ateísmo, é que não temos nenhum meio de expressar qualquer coisa sobre Isso. Palavras pertencem ao universo dos fenômenos e são aplicáveis apenas à ele. Quando alguém vai além dos fenômenos, em direção à Realidade, palavras precisam obrigatoriamente ser deixadas para trás. Nenhum ensinamento, nenhuma descrição, nenhum pensamento podem expressar o Absoluto — mas podemos experimentá-lo, se suficientemente evoluídos.

O que Buda combateu foram as numerosas tentativas que foram feitas, estão sendo feitas e continuarão a ser feitas, de dizer que o Absoluto é isso ou aquilo, um Deus pessoal, um Criador, um Deus-Pai. Ele insistentemente recusou responder qualquer pergunta sobre o assunto porque isso era inexprimível em palavras. Ele não iria permitir a seus discípulos imaginar um Absoluto a semelhança deles, como é a tendência do homem em todo lugar. Ele assinalou sutilmente que é melhor se ajustar para tentar alcançar a iluminação e, assim, experimentar o Absoluto por si próprio, em vez de perder tempo tentando ineficazmente falar sobre isso, já que nada que possa ser dito sobre Isso pode ser verdade em absoluto. Palavras iriam inevitavelmente modificá-Lo e moldá-Lo, resultando no máximo em uma aproximação grosseira. Palavras podem ser verdadeiras apenas em certo nível, mas apenas nesse nível, portanto serão apenas verdades relativas. Assim, como um entendimento que só funciona por meio de palavras pode conter o que não pode ser colocado em palavras? Apenas pela experiência direta.

Se esse fato tivesse sido assimilado, às custas do orgulho humano, teria havido muito menos intolerância, violência e sofrimento cometidos em nome da religião, entre os vários adeptos de seus seus próprios credos; todos afirmando de maneira confiante e dogmática que somente eles receberam a Verdade e que todos os outros estão errados e devem ser salvos de sua ignorância voluntária.

Então, se não há nenhum Deus no sentido de um Deus pessoal — ou se for compreendido que conceitos de um Deus pessoal, um Criador ou um Deus-Pai, são apenas relativamente verdadeiros e adequados apenas a alguns estágios do desenvolvimento humano — porque há tantas referências aos “deuses” [no budismo tibetano], sugerindo toda uma hierarquia?

A palavra páli “deva” é traduzida como “deus”, mas na verdade significa “espírito”, um ser de um reino superior que, no budismo, pode influenciar seres humanos, ajudar e protegê-los. A Terra não é o único mundo de seres da cosmologia budista. Há incontáveis universos em diferentes planos de existência, isto é, em diferentes estágios de desenvolvimento (espiritual). Alguns são mais elevados que nós (que somos a maioria). Alguns são inferiores. Há muitas referências a seres humanos renascendo em reinos superiores ou inferiores.

Mas, no budismo, não há lugar para a hierarquia massiva da religião Hindu, que acrescentou o próprio Buda a essa hierarquia (até os cristãos fizeram Dele um dos seus santos), nem para a Trindade de Criador, Preservador e Destruidor, nada exceto um Absoluto inexprimível. Em Sua direção as pessoas estão evoluindo ou involuindo, alguns se tornando espíritos de planos superiores, outros afundando em mundos inferiores. E todos pertencem ao mundo dos fenômenos, não à Realidade. Apenas o Absoluto é Real. E nem podemos realmente dizer isso sem declarar algo menor que a Verdade. Mas Ela está lá para ser realizada por alguém com o desejo e determinação como os de Milarepa.

Todo ser humano, todo ser, é um Buda em potencial. Depende de cada um realizar sua própria Natureza Búdica.

Lobzang Jivaka
“The Life of Milarepa”

Leia também:
- Diferentes nomes (de Deus)

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10 Comentários

  1. Anonymous
    Escrito em: 19 de agosto de 2009, às 21:06 | Permalink

    eu acho que isto de estar a considarar o conceito de Deus como sendo algo fictício não tem qualquer cabimento. Várias teorias sustenam a provemiencia do homem como algo dependente da propria natureza; ora, se o homem é puramente produto da natureza qual é a fonte da propria natureza? quem a fez? uqal o destino do homem qual o destino da propria natureza? será que é possivel que do nada venha algo? como? ninguém sabe. A mente humana é tão limitada que não tem qualquer capacidade de interpretar a realidade de Deus. Potanto, Deus xeiste independentemente da nossa firmação ou negação. Ele é …

  2. gustavo
    Escrito em: 19 de setembro de 2009, às 21:42 | Permalink

    Para mim, se há ou não um deus, não faz tanta importancia;já q ue não creio em deus;mas por vezes me pergunto sobre como tudo tbm saio do nada, talvez nós devessemos desviar de tentar chegar a uma concluzão puramente precipitada da existencia de um SUPERIOR, é mais compreensivel tentarmos buscar, assim como Buda disse, a razãod e todo nosso sofrimento, e logo isto assim moldar o novo mundo nos parametros de uma sociedade mais justa, p com nós mesmos.

  3. rvaz22
    Escrito em: 9 de janeiro de 2010, às 18:18 | Permalink

    Ola a todos. A respeito do tema aqui abordado, o texto que segue pode ser de interesse.
    Gasshô, Rodrigo

    http://www.monjacoen.com.br/textos-budistas/textos-diversos/198-o-budismo-e-o-silencio-sobre-deus-

  4. Anônimo
    Escrito em: 8 de julho de 2010, às 10:23 | Permalink

    Caros amigos, olá!
    Eu quero comentar algo e perguntar-lhes a sua opinião:
    Eu fui espírita por muito tempo, conheci várias práticas espirituais, desde a incorporação de espíritos, entre outras, tais como: fui vidente, leitura de mãos, etc; fui levado ao engano por erros ao longo dessas práticas que me levaram a cometer pecados tais que hoje a minha alma sofre por todos estes erros. Tenho enfrentado batalhas espirituais diárias na minha mente contra demônios que tentam dominá-la, a tal ponto que às vezes quando medito, sentado na postura de lótus, sinto tomentos em minha mente ao longo do dia, principalmente, na área dos relacionamentos. Amigos, eu gostaria de saber se devo continuar meditando e como devo fazer para evitar tais demônios e tormentos. Quero ressaltar que sou um cristão e tenho buscado diariamente a misericórdia divina para me auxiliar nesta batalha espiritual, com leituras diárias da torá e da tanach (bíblia sagrada – velho testamento) e do novo testamento e devoções ao Criador em nome de Jesus Cristo, o messias. Quero esclarecer que estas são os ensinamentos que tenho aprendido ao longo da minha vida espiritual, mas que sua opinião mesmo é acerca da medtação em relação a esses demônios. Como devo me conduzir.
    Obrigado!

  5. Sérgio
    Escrito em: 27 de agosto de 2010, às 2:50 | Permalink

    Li o texto de anônimo sobre “Eu quero comentar algo e perguntar-lhes a sua opinião:
    Eu fui espírita por muito tempo, conheci várias práticas espirituais, desde a incorporação de espíritos, entre outras, tais como: fui vidente, leitura de mãos, etc; fui levado ao engano por erros ao longo dessas práticas que me levaram a cometer pecados tais que hoje a minha alma sofre por todos estes (…)”.

    Os demônios representa a sua consciência. Ela que lhe julga e mais ninguém. Fique feliz por isso porque fará você reconhecer seus erros e se emancipar espiritualmente à luz do criador. Se não houvessem esses demônios não haveria arrependimento e consideraria psicopatia.

  6. Thiago
    Escrito em: 20 de maio de 2011, às 12:06 | Permalink

    Ao irmão com dificuldade!

    Eu passei pelos mesmos desequilíbrios que você está passando. É normal, porém gera desconforto, pois você está equilibrando suas faculdades. Continue com preces diárias, recitando o nome de Deus-Pai e Jesus e frequente uma casa religiosa de preferência, para alguém experiente ir te guiando. Foi assim que sai do fundo do poço (é foda, mas vale a pena a subida).

    Abraços e melhoras!

  7. Francisco
    Escrito em: 21 de outubro de 2011, às 11:36 | Permalink

    O demônio não existe. É apenas um arquétipo criado pelo nosso inconsciente. Nascemos em uma nação cristã, e associamos a figura do mal, da doença, da morte a um ser fictício chamado demônio. Assista esses vídeos e você se sentirá melhor.

    http://www.youtube.com/watch?v=kuyjmV5GGM0

  8. Luiz Carlos Nogueira
    Escrito em: 2 de novembro de 2011, às 14:04 | Permalink

    Sobre Deus no Budismo.

    Esse texto explicativo não deixa nenhuma dúvida e não há reparos a fazer. Muito bom mesmo. Parabéns pelo poder de síntese.

  9. Henrique
    Escrito em: 12 de novembro de 2011, às 23:28 | Permalink

    “Te poe em silencio, senta e busca dentro de si.”

    Interessante.

    Quando a mente vai em paz, a origem se descortina.
    Um pensamento é toda a distância entre ilusão e iluminação.

    :)

  10. Lucas
    Escrito em: 15 de janeiro de 2012, às 13:52 | Permalink

    Maravilhoso esse texto, expressou todo meu pensamento sobre Deus! Como podemos pensar, ter idéias ou escrever sobre o ilimitado(Deus) se os pensamentos, ideias e palavras são limitadas? É muito mais cabível termos uma prática de auto observação e assim descobrir a essência do Absoluto.

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Comentários

  • Fatima Fonseca: Texto muito bonito, principalmente quando diz…Uma gota...
  • Janaina Bueno: Gostaria muito de connhecer melhor o Budismo Tibetano, moro no...
  • luiz sergio: Onde podemos encontrar a plena lucidez,a plena atenção, o amor,...
  • Lucas: Maravilhoso esse texto, expressou todo meu pensamento sobre Deus! Como...
  • Cléber A. Vianna...: Sou dicipulo de BUDDHA, praticante quero fazer amigos...
  • luiz sergio: E se estamos a todo o momento com a atenção voltada para a...
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