Mesmo às pessoas comuns pode-se dizer que o seu nome é Legião — composta, na maioria, de personalidades excepcionalmente complexas que se identificam a si mesmas com uma ampla diversidade de tendências, anseios e opiniões.
Os santos, ao contrário, não possuem mente dupla ou corações divididos ao meio, mas são puros e simples, por maiores que sejam seus dons intelectuais. A multiplicidade da Legião dá lugar à unidireção — não qualquer uma dessas direções que levam à ambição e à inveja, ou ao anseio de poder e fama, nem sequer a qualquer outra aspiração humana conducente à arte, ao estudo e à ciência, considerados como um fim em si mesmos, mas à suprema, ultra-humana unidireção que está no coração daquelas almas que, consciente e sistematicamente, perseguem a culminante finalidade humana: o conhecimento da Eterna Realidade.
Em uma das escrituras páli, relata-se um fato significativo acerca do brâmane Drona que,
“vendo o Abençoado Senhor sentado ao pé de uma árvore, perguntou: ‘Sois um deva?’ A que o Supremo Ser respondeu: ‘Não sou’. ‘Sois um gandharva?’ ‘Não, não sou.’ ‘Sois um yaksha?’ ‘Não, não sou.’ ‘Sois um homem?’ ‘Não, não sou um homem.’ Quando o brâmane finalmente perguntou quem afinal ele era, o Abençoado Senhor replicou: ‘Aquelas influências maléficas, aqueles anseios, cuja não-destruição me individualizariam como um deva, um gandharva, um yaksha (três tipos de seres sobrenaturais) ou um homem, eu já os aniquilei completamente. Sabei, portanto, que eu sou um Buda.’ “
Aqui diremos, de passagem, que somente o unidirigido é verdadeiramente capaz de cultuar um Deus. O monoteísmo, como teoria, pode ser acolhido até por uma pessoa cujo nome é Legião. Mas quando formos passar da teoria à prática, do conhecimento discursivo ao conhecimento imediato do Deus único, só haverá monoteísmo quando houver simplicidade de coração. O conhecimento está no conhecedor de acordo com seu modo de ser. Quando o conhecedor tem múltiplas dimensões psíquicas, o universo que ele conhece por experiência imediata é politeísta.
O Buda declinou de fazer qualquer declaração sobre a derradeira Realidade Divina. Tudo que ele pudesse dizer sobre ela seria “nirvana”, que é o nome da experiência por que passa o indivíduo totalmente desprendido e plenamente atento. A esta mesma experiência outros deram o nome de união com Brahman, com Al Haqq, com a Divindade imanente e transcendente. Mantendo, neste assunto, a posição de um estrito operacionalista, o Buda falaria apenas da experiência espiritual, e não da entidade metafísica presumida pelos teólogos de outras religiões, e também, mais tarde, o Budismo diria ser o objeto e (desde que em contemplação, o conhecedor, o conhecido e o conhecimento são unos), e ao mesmo tempo, o sujeito e a substância daquela experiência.
“Quando falta discriminação ao homem, sua vontade vagueia em todas as direções, em busca de inúmeras finalidades. Aqueles que não possuem discriminação podem citar, de cor, a letra da escritura; mas eles estão realmente negando sua verdade interna. Estão cheios apenas de desejos mundanos e famintos de recompensas celestiais. Usam belas figuras de retórica, ensinam complicados rituais, que presumem possam obter prazer e poder para os que praticam. Mas, na verdade, eles nada compreendem exceto a lei do Carma, que encadeia os homens ao renascimento. Aqueles cuja discriminação for roubada por essas conversas, crescem apegados profundamente ao prazer e à dor. Desta forma, não podem desenvolver a concentração unidirecional da vontade, que conduz o homem à absorção em Deus.” Bhagavad-Gita
Pessoas cujo nome é Legião
Aldous Huxley, em “Filosofia Perene”