Aprender a viver é aprender a soltar

Não haveria nenhuma possibilidade de chegar a conhecer a morte se ela acontecesse só uma vez. Mas felizmente a vida não é mais que uma contínua dança de nascimento e morte, um bailado de mudanças. Toda vez que ouço o sussurrar de um ribeirão de montanha, ou as ondas quebrando na praia, ou ainda as batidas do meu coração, escuto o som da impermanência. Essas mudanças, essas pequenas mortes, são nossos elos vivos com a morte. Elas são o pulso da morte, o coração dela batendo, incitando-nos a largar todas as coisas a que somos apegados.

Vamos então trabalhar com essas mudanças agora, durante a vida: esse é o verdadeiro modo de nos prepararmos para a morte. A vida pode ser cheia de dor, de sofrimento e dificuldades, mas todas essas experiências são oportunidades que nos são dadas para nos ajudar a aceitar emocionalmente a morte. É só quando acreditamos que as coisas são permanentes que perdemos a oportunidade de aprender com a mudança.

Se desperdiçarmos essa possibilidade, fechamo-nos e nos deixamos dominar pelo apego. O apego é a fonte de todos os nossos problemas. Uma vez que a impermanência para nós é sinônimo de angústia, agarramo-nos desesperadamente às coisas, mesmo que todas elas mudem. Vivemos com pavor de soltar, com pavor do próprio viver, já que aprender a viver é aprender a soltar. E essa é a tragédia e a ironia da nossa luta pela permanência: ela não só é impossível, como nos traz exatamente a dor que procuramos evitar.

Sogyal Rinpoche (Tibete, 1947 ~)
O Livro Tibetano do Viver e do Morrer

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Comentários

  • NattyCampos: que assim seja! :)
  • Emer: Waldik: http://samsara.blog.br/2010/08 /surgimento-das-aparencias/
  • WALDIK: Alguém pode me explicar como nossa Natureza de Buda, que é sempre...
  • Sérgio: Li o texto de anônimo sobre “Eu quero comentar algo e...
  • noslen rubin: Belissimo texto é preciso que cada um de nós possa ter mais...
  • Tiago: Excelente! Devemos parar de procurar pelo Sol, e dizer do que é feito...
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