Consciência condicionada

A maioria de nós não reconhece nossa natureza buda até que ela seja indicada para nós.

Não muito tempo atrás, ouvi uma história sobre um homem na Índia que ganhou um caro relógio. Não tendo nenhuma experiência sobre o que um relógio é ou faz, ele imaginava-o como nada mais que um belo bracelete.

Não tinha ideia de que era um instrumento para indicar o tempo. Consequentemente, estava sempre atrasado para o trabalho, acabou sendo demitido e perdeu sua casa.

Embora ele agendasse entrevistas com diversos bons empregadores, estava ou muito atrasado ou chegava muito cedo. Finalmente, frustrado, perguntou para um homem na rua:

– “Pode me dizer que horas são?”

O homem olhou surpreso para ele.

– “Você está usando um relógio”, disse. “Isso mostra que horas são”.

– “Um relógio?”, respondeu. “O que é isso?”

– “Você está brincando, né?”, disse o estranho, apontando para o instrumento que ele usava no pulso.

– “Não”, respondeu. “Isto aqui é um fina peça de joalheria. Um amigo me deu. O que isso tem a ver com saber que horas são?”

Então, com uma boa dose de paciência, o estranho na rua o ensinou a ler os ponteiros das horas e minutos do relógio, e até o rápido ponteiro que passa sobre os segundos.

– “Não posso acreditar nisso!”, exclamou. “Você quer dizer que sempre tive algo que podia me dizer as horas e nunca soube?”

– “Não me culpe por isso”, respondeu o estranho. “Quem te deu devia ter explicado”.

Após um momento, o homem respondeu com uma voz baixa e embaraçada:

– “Bem, talvez ele também não soubesse.”

– “Seja o que for”, o estranho respondeu, “ele lhe deu um presente que você não sabia usar. Agora, pelo menos, você sabe como usar.”

E com isso desapareceu no fluxo de pedestres, mendigos, carros e carroças que lotam as movimentadas ruas da Índia.

Quem poderá saber se esse amigo era um Buda ou apenas um estranho qualquer encontrado ao acaso, que coincidentemente sabia a diferença entre um relógio e um bracelete?

Em qualquer caso, o homem depois foi capaz de usar seu relógio e se apresentar a tempo para as entrevistas. Um dia conseguiu trabalho e reestabeleceu sua vida.

A lição que aprendi com essa história é que somos dotados de capacidades que frequentemente falhamos em reconhecer até que sejam indicadas para nós. Esses lembretes são o que gosto de chamar de “momentos buda” — oportunidades para despertar, por assim dizer, do sonho da consciência condicionada.

Yongey Mingyur Rinpoche (Nepal, 1975 ~)
“Joyful Wisdom”, 1 | 4

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Um Comentário

  1. Anonymous
    Escrito em: 12 de setembro de 2009, às 19:10 | Permalink

    Espetacular!!!

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Comentários

  • Fatima Fonseca: Texto muito bonito, principalmente quando diz…Uma gota...
  • Janaina Bueno: Gostaria muito de connhecer melhor o Budismo Tibetano, moro no...
  • luiz sergio: Onde podemos encontrar a plena lucidez,a plena atenção, o amor,...
  • Lucas: Maravilhoso esse texto, expressou todo meu pensamento sobre Deus! Como...
  • Cléber A. Vianna...: Sou dicipulo de BUDDHA, praticante quero fazer amigos...
  • luiz sergio: E se estamos a todo o momento com a atenção voltada para a...
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