Examinar os ensinamentos

[…] Podemos, também, optar por despertar, em vez de sonhar. Despertar totalmente significa reconhecer a verdade maior, a natureza intrinsecamente pura do corpo, fala e mente. Se quisermos despertar, no entanto, não iremos emergir automaticamente do nosso sono profundo. Precisamos de métodos, e precisamos aplicar esses métodos.

Sabedoria, conhecer nossa natureza verdadeira, é o antídoto para a ignorância, que é não conhecê-la. Ela é a lâmpada que dissipa a escuridão de nossa mente. Por meio do processo tríplice de ouvir, contemplar e meditar sobre os ensinamentos, podemos, enfim, trazer à tona a sabedoria que está subjacente ao nosso conhecimento comum, cotidiano.

Inicialmente, alguém que conhece mais do que nós nos apresenta algo que é mais grandioso do que qualquer coisa que jamais tenhamos conhecido. Mas, ouvir esse ensinamento, mesmo em todos os seus detalhes, não é suficiente para nos fazer acreditar no que ouvimos. A fé cega não é muito útil, pois só a compreensão do que foi ensinado nos levará a atrelar nossas habilidades à nossa prática.

Não importa quão claramente tenhamos entendido o que foi dito, ouvir os ensinamentos por si só, não reduz o sofrimento. Para que isso aconteça, precisamos assimilar a sabedoria que vem com eles. Precisamos pensar sobre eles, fazendo com que nosso intelecto e inteligência lhes dêem suporte, refletindo, questionando, examinando, para ver se o que nos foi ensinado é verdade, se funciona.

Nesse processo de contemplação surgem perguntas. Procuramos respostas, e contemplamos mais uma vez. Se não investigarmos e sondarmos, se não removermos as dúvidas, fazer nossa prática espiritual será como tentar costurar com uma agulha de duas pontas. Não iríamos muito longe. Por meio da contemplação, desenvolvemos uma compreensão mais profunda e uma certeza, além do conhecimento intelectual, além do mero acúmulo de fatos.

Entretanto, até mesmo o que é profundamente compreendido pode ser esquecido. Portanto, repetidamente, aplique essa compreensão em sua experiência até que se torne mais intuitiva. Finalmente, por meio do processo da meditação, nossa sabedoria inerente torna-se completamente óbvia.

Chagdud Tulku Rinpoche (Tibete, 1930 – Brasil, 2002)
Portões da Prática Budista, I | 4

Nos próximos dias, estarei fora e ficarei sem postar até fevereiro. Boas festas!

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Um Comentário

  1. Anonymous
    Escrito em: 23 de janeiro de 2010, às 12:36 | Permalink

    "Portões da prática budista" é um livro raro, absolutamente precioso. Quem faz dele um guia para a vida (e a morte) está fadado a encontrar-se e reconciliar-se consigo mesmo. Seu autor é ninguém menos que um buda, a quem só fui reconhecer depois que, tomado do mais genuíno espanto, li o livro – avistara Chagdud em Brasília, mas na ocasião, cego como sempre, não me dei conta de que estava na presença de um buda.
    Por sua vez, este blog, sob todos os aspectos, está maravilhosamente à altura dos mais sublimes ensinamentos espirituais. Gata, gata, paragata, parasamgata, bodhi svaha! (Ide, ide, ide além, ide além do mais além, até a realização última!
    Roberto – Brasília

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