Nós temos uma única mente, mas precisamos diferenciar entre seus dois aspectos: essência e expressão. Compreenda este exemplo da relação dos dois. A essência é como o sol brilhando no céu. A expressão é como seu reflexo na superfície da água. O sol no céu é o sol real. O reflexo do sol aparecendo na superfície da água parece o sol, mas não é o verdadeiro sol.
Vamos chamar o sol no céu de natureza buda, a qualidade inequívoca e não iludida, a essência em si mesma. O reflexo do sol na superfície da água exemplifica nosso pensamento iludido normal, a expressão. Sem o sol no céu é impossível aparecer um reflexo dele. Embora haja em realidade apenas um sol, parece que há dois. É uma identidade com dois aspectos. [...]
O estado de um buda é não-confuso e não-iludido, exatamente como o sol brilhando no céu. O estado mental dos seres sencientes é como o reflexo na água.
Assim como o reflexo depende da água, nossos pensamentos dependem de objetos. O objeto é o que é pensado, o sujeito é a mente que percebe. A fixação em sujeito e objeto é a causa da continuidade na existência samsárica iludida, dia e noite, vida após vida. A fixação no sujeito e objeto, o sujeito que percebe e o objeto percebido, é solidificada de novo e de novo a cada momento e assim recria a existência samsárica. [...]
Poderia o reflexo do sol na água iluminar o mundo todo? Poderia sequer brilhar sobre todo o lago? Poderia fazer as coisas crescer? Não, porque ele não tem as qualidades do sol real. Da mesma maneira, o aspecto da mente conhecido como expressão, nosso pensamento, não tem as qualidades do verdadeiro estado búdico.
O sol no céu sozinho é capaz de brilhar e espalhar seu calor por todo o mundo, iluminando a escuridão. Para dizer de maneira simples, a mente dos budas é não-obscurecida, enquanto a mente dos seres sencientes é obscurecida. Qual é o obscurecimento? É a nossa própria fixação recorrente em sujeito e objeto.
Tulku Urgyen Rinpoche (Tibete, 1920 — Nepal, 1996)
“Repeating the Words of Buddha”


3 Comentários
Excelente! Devemos parar de procurar pelo Sol, e dizer do que é feito e onde está. Os sentidos enganam, a visão nos leva a acreditar que o sol está ali no lago, como na lenda amazõnica da vitória-régia, em que a índia apaixonada pela Lua inalcançável, vê o seu reflexo na água e mergulha morrendo afogada, procurando o que não existe. Se ela vivesse o momento poderia perceber que não há lua a ser buscada. E seu amor e paixão se transformariam em metta. Sem egoísmo, sem desejo, sem busca.
Assim não há nada a ser buscado, defindo e conceituado. Mas apenas percebido.
Há um texto muito bom no Acesso ao Insight de um grande mestre iluminado Ajaan (ou Ajahn) Chah. O texto se chama Convenção e Liberdade.
Apesar dessas convenções de sujeito e objeto serem criações nossa, como Ajahn Chah fala, podemos usá-las para transmitir o Dhamma. Um iluminado vê a verdade, mas usa a ilusão a favor do Dhamma.
Alguém pode me explicar como nossa Natureza de Buda, que é sempre iluminada, pode cair no samsara ?
Grato,
Waldik
João Pessoa-PB
Waldik: http://samsara.blog.br/2010/08/surgimento-das-aparencias/