Todas as escolas budistas concordam que ações inábeis, danosas, devem ser evitadas, tendo aderido a isso por milhares de anos; no entanto, quando meus colegas e eu começamos a ministrar retiros de meditação neste país, ficamos um pouco embaraçados ao falar sobre moralidade. Imaginamos que as pessoas estavam vindo para meditar e se iluminar, não para ouvir palestras sobre certo ou errado. Afinal, em nosso ambiente cultural pós-moderno, qualquer moralidade não é sempre relativa?
No entanto, rapidamente se tornou claro que é impossível separar o comportamento moral e ético da realização meditativa. Toda a jornada espiritual se baseia na moralidade de não machucar. Essa é a expressão do amor e cuidado que sentimos tanto pelos outros quanto por nós mesmos. Sem essa fundação, a sabedoria não dura. Especialmente em tempos de valores em transição como os nossos, a importância da integridade e responsabilidade pessoais precisa ser reafirmada de novo e de novo para que não fiquemos perdidos na confusão dos nossos próprios desejos.
Nosso desafio é dar a essa investigação sobre valores morais básicos um significado mais profundo, injetar vitalidade nisso em um mundo moderno, e fazer isso sem se tornar moralista, julgador ou divisivo.
Na perspectiva budista, todos os preceitos morais são regras de treinamento, não mandamentos. Aderimos a eles como uma maneira de treinar nosso coração, como um cuidado em relação ao mundo e nós mesmos, em vez de um conjunto externo imposto de regras. Essa é uma distinção crítica, já que possibilita que olhemos nossas vidas e ações sem a culpa e o auto-julgamento paralisante; ao mesmo tempo, tomando responsabilidade conscientemente por aquilo que fazemos.
“One Dharma”, cap. 5

Epítome da ilusão
Dilgo Khyentse Rinpoche
Dilgo Khyentse Rinpoche (Tibete, 1910 – Butão, 1991)
“The Hundred Verses of Advice”, v. 78
(Os Cem Conselhos de Padampa Sangye)