Epítome da ilusão

Dilgo Khyentse Rinpoche


Dilgo Khyentse Rinpoche (Tibete, 1910 – Butão, 1991)

Um explorador que descobre uma ilha de tesouros pode encher seu navio de ouro, diamantes, safiras, rubis e esmeraldas. Mas sua boa fortuna nem se compara com a vida humana, que nos oferece algo muito mais precioso que qualquer ouro ou pedras preciosas — a chance de refletir e praticar o Dharma, dando sentido a nossas vidas. [...]

É agora, enquanto você desfruta de todas as condições favoráveis da vida humana, que você tem a liberdade necessária para praticar o Dharma. Ignorar tal oportunidade seria como um mendigo que pega uma jóia e, tomando-a como um pedaço de vidro, joga-a de volta na sujeira.

Pior ainda seria realmente compreender o valor da vida humana e desperdiçá-la conscientemente em distrações e a perseguição de ambições mundanas — essa é a epítome da ilusão. O explorador que retorna da ilha de tesouros de mãos vazias teria cruzado os oceanos em vão. Não cometa tal erro.

“The Hundred Verses of Advice”, v. 78
(Os Cem Conselhos de Padampa Sangye)

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Moralidade e meditação

Joseph Goldstein:

Todas as escolas budistas concordam que ações inábeis, danosas, devem ser evitadas, tendo aderido a isso por milhares de anos; no entanto, quando meus colegas e eu começamos a ministrar retiros de meditação neste país, ficamos um pouco embaraçados ao falar sobre moralidade. Imaginamos que as pessoas estavam vindo para meditar e se iluminar, não para ouvir palestras sobre certo ou errado. Afinal, em nosso ambiente cultural pós-moderno, qualquer moralidade não é sempre relativa?

No entanto, rapidamente se tornou claro que é impossível separar o comportamento moral e ético da realização meditativa. Toda a jornada espiritual se baseia na moralidade de não machucar. Essa é a expressão do amor e cuidado que sentimos tanto pelos outros quanto por nós mesmos. Sem essa fundação, a sabedoria não dura. Especialmente em tempos de valores em transição como os nossos, a importância da integridade e responsabilidade pessoais precisa ser reafirmada de novo e de novo para que não fiquemos perdidos na confusão dos nossos próprios desejos.

Nosso desafio é dar a essa investigação sobre valores morais básicos um significado mais profundo, injetar vitalidade nisso em um mundo moderno, e fazer isso sem se tornar moralista, julgador ou divisivo.

Na perspectiva budista, todos os preceitos morais são regras de treinamento, não mandamentos. Aderimos a eles como uma maneira de treinar nosso coração, como um cuidado em relação ao mundo e nós mesmos, em vez de um conjunto externo imposto de regras. Essa é uma distinção crítica, já que possibilita que olhemos nossas vidas e ações sem a culpa e o auto-julgamento paralisante; ao mesmo tempo, tomando responsabilidade conscientemente por aquilo que fazemos.

“One Dharma”, cap. 5

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Emoções destrutivas

Dalai Lama (Tibete, 6 de julho de 1935 ~):

A possibilidade de distinguir entre emoções construtivas e destrutivas está bem ali para ser observada no momento em que uma emoção destrutiva surge — a calma, tranquilidade e equilíbrio da mente são imediatamente interrompidas. Outras emoções não destroem o equilíbrio ou o senso de bem-estar assim que surgem, mas na verdade aumentam-no, então são chamadas de emoções construtivas.

Também há emoções que são despertadas pela inteligência. Por exemplo, compaixão pode ser despertada quando trazemos à mente pessoas que estão sofrendo. Quando a compaixão é de fato vivenciada, é verdade que a mente de certa maneira fica perturbada, mas isso é mais na superfície. Bem no fundo há um senso de confiança; então, em um nível mais profundo não há distúrbio. Uma consequência de tal compaixão, despertada pela reflexão e inteligência, é que a mente se torna calma.

As consequências da raiva — especialmente seus efeitos a longo prazo — é que a mente fica perturbada. Geralmente, quando a compaixão deixa de ser só um estado mental para se tornar um comportamento, ela tende a se manifestar de modo a servir os outros; já a raiva, quando chega ao ponto da ação, ela costuma se tornar, obviamente, destrutiva. Mesmo se ela não se manifestar como violência, você pode — por exemplo — ter a capacidade de ajudar e, então, evitar fazer isso; isso também seria um tipo de emoção destrutiva.

“Destructive Emotions”
(Dharma Quote of The Week – Snow Lion, 27/05/2011)

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Fabricações mentais

Sutra Guirlanda de Flores:

Analise o corpo interior:
Quem aqui dentro é o “eu”?
Quem consegue pensar desse modo
Compreenderá a existência ou não do eu.

Este corpo é uma configuração temporária
E não tem local de residência;
Quem compreende este corpo
Não terá nenhum apego a ele.

Considerando o corpo cuidadosamente,
Todas as coisas serão vistas claramente:
Sabendo que todos os elementos são irreais,
A pessoa não irá criar fabricações mentais.

Baseada em quê a vida surge,
E baseada em quê ela desaparece?
Como uma roda de fogo girando,
Seu começo e fim não podem ser determinados.

O sábio pode observar com insight
A impermanência de todos os fenômenos;
Todas as coisas são vazias e sem eu,
Sempre independentes de todos os rótulos.

Todas as consequências nascem de ações;
Como sonhos, não são verdadeiramente reais.
De momento a momento elas continuamente vão morrendo,
Tanto antes quanto depois.

De todas as coisas vistas no mundo
Apenas a mente é a hospedeira;
Ao se apegar a formas conforme sua interpretação
Ela fica iludida, sem correspondência com a realidade.

[...] Pelo poder da relação entre percebedor e objeto percebido
Nascem todos os tipos de coisas;
Elas logo passam, não permanecendo,
Morrendo instante a instante.

“Um bodisatva pede esclarecimento”
Sutra Guirlanda de Flores (Avatamsaka), livro 39
“Flower Ornament Scripture”

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Perspectiva de mudança

Matthieu Ricard (França, 1946 ~):

Muitas receitas para a felicidade insistem que, por natureza, somos uma mistura de luz e sombra, portanto devemos aprender a aceitar os nossos erros e as nossas qualidades positivas. Elas afirmam que podemos resolver a maior parte dos nossos conflitos interiores e viver cada dia com confiança e bem-estar se desistirmos de lutar contra as nossas próprias limitações. O nosso melhor caminho seria liberar a própria natureza, já que tentar contê-la só agravaria os problemas. [...] Mas todas essas receitas não seriam apenas uma maneira de embalar os nossos hábitos num pacote bonito?

Pode até ser que “expressar-se naturalmente”, dar liberdade aos próprios impulsos “naturais”, traga alívio momentâneo para as tensões interiores, mas continuaremos presos à armadilha do círculo sem fim dos nossos hábitos. Uma atitude como essa não resolve nenhum problema sério, já que ao sermos ordinariamente nós mesmos, permanecemos ordinários. Como escreveu o filósofo francês Alain: “Não é preciso ser feiticeiro para rogar uma praga sobre si mesmo, basta dizer: ‘Sou assim e não posso fazer nada’”.

Somos muito parecidos com aqueles pássaros que passaram tanto tempo na gaiola que mesmo quando têm a possibilidade de voar para a liberdade voltam a ela. Estamos tão acostumados com nossos erros que mal podemos imaginar como seria a vida sem eles. A perspectiva de mudança nos dá vertigens.

E isso não é falta de energia. Como dissemos, fazemos esforços consideráveis em um sem-número de direções, empreendendo incontáveis projetos. [...] Mas se nos ocorre pensar: “Eu deveria tentar desenvolver o altruísmo, a paciência, a humildade”, hesitamos, e dizemos a nós mesmos que essas qualidades virão naturalmente a longo prazo, ou que não são grande coisa e que, até agora, passamos perfeitamente bem sem elas.

Quem, sem esforços metódicos e determinados, pode interpretar Mozart? Certamente isso não é possível se ficamos martelando o teclado com dois dedos. A felicidade é um modo de ser, é uma habilidade, mas para desenvolvê-la é necessário aprendizado. Como diz o provérbio persa: “A paciência transforma a folha de amora em seda”.

“Felicidade”, cap. 3

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Oração não dual

Joseph Goldstein:

De modo mais profundo, a prece se torna uma maneira de nos darmos conta de que nossa mente é inseparável daqueles a quem estamos orando. Nesse nível, a prece nos desperta para nossa natureza mais profunda. [...]

A prece começa no nível relativo da dualidade — pensando em seres fora de nós mesmos — mas ela também nos conecta com a natureza última da mente. Quem está orando? E para quem?

Stephen L. Carter, em seu livro “Civility”, descreve uma entrevista com Madre Teresa:

Um entrevistador perguntou a Madre Teresa o que ela diz a Deus quando reza.
“Não digo nada”, ela respondeu. “Apenas escuto”.
Então o entrevistador perguntou o que Deus diz para ela.
“Ele não diz nada”, disse Madre Teresa. “Apenas escuta”. E antes que o atônito entrevistador pudesse pressioná-la mais, ela acrescentou: “E se você não compreende isso, não posso explicar para você”.

“One Dharma”, cap. 4

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Caos do caminho

Chogyam Trungpa (Tibete, 1939 – Canadá, 1987):

O que você faria se não houvesse conflito? Isso seria mortal. Lidar com conflitos é precisamente a ideia de trilhar o caminho espiritual. O caminho é uma estrada selvagem e retorcida na montanha, com todo tipo de curvas; há animais ferozes, ataques de bandidos, todo tipo de situação surgindo. No que se refere à ocupação da nossa mente, o caos do caminho é a diversão.

“The Dawn of Tantra”
(Ocean of Dharma Quotes of the Week, 10/11/11)

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Responder com compaixão

Dalai Lama (Tibete, 6 de julho de 1935 ~):

Há um ditado indiano: se você foi atingido por uma flecha envenenada, é preciso primeiro removê-la. Não há tempo para perguntar quem atirou, que tipo de veneno há nela e tudo mais. Primeiro, lide com o problema imediato, mais tarde podemos investigar.

De modo similar, quando encontramos sofrimento humano, é importante responder com compaixão em vez de questionar a política por trás das pessoas que ajudamos. Em vez de perguntar se o país delas é inimigo ou aliado, devemos pensar: “esses são seres humanos, eles estão sofrendo, e têm um direito à felicidade igual ao nosso”.

Nossa atitude em relação ao sofrimento é muito importante porque pode afetar como lidamos com ele quando surge. Nossa atitude usual consiste em uma aversão intensa e intolerância em relação à nossa própria dor e sofrimento. Contudo, se pudermos transformar nossa atitude, e adotar uma que nos permita maior tolerância, isso pode nos ajudar bastante a contrabalancear sentimentos de infelicidade, insatisfação e descontentamento mentais.

“The Pocket Dalai Lama”
(Dharma Quote of The Week – Snow Lion, 12/08/2011)

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Sair de trás dos hábitos

Dzigar Kongtrül Rinpoche (Índia, 1964 ~):

A razão pelo qual estudamos e praticamos o buddhadharma é aprender como trabalhar com nossas mentes. Precisamos trabalhar com nossas mentes particularmente durante situações difíceis, quando nossa mente não está amigável, quando ela nos assusta a ponto de nem querermos se relacionar com ela.

O Dharma nos ensina como olhar nossa mente e nos familiarizarmos com seu funcionamento. Aprendemos quais são seus padrões, como ela escapa do controle, ameaçando a nós e os outros. Em essência, o Dharma cultiva nossa inteligência. Ele permite que uma pessoa inteligente saia de trás dos hábitos, impulsos e reações que normalmente dominam a mente.

Então, quando chega o momento em que as forças da nossa mente vão em direção ao descontrole, não nos sentimos como uma pena ao vento.

“Light Comes Through”, cap. 1

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Quem está sonhando afinal?

Nyoshul Khen Rinpoche (Tibete, 1932 – França, 1999):

De modo último, todas as coisas estão resolvidas na natureza absoluta. Dentro de tais fenômenos que são como sonhos, o que há para adotar e se apegar? O que há para julgar? O que há para rejeitar ou abandonar? Não há nada tanto para pegar quanto largar.

Quando você desperta — quando você reconhece a natureza de sonho das aparências — o que há para fazer? É só um sonho, então e aí?

Não há nada mais a fazer em relação a isso, a não ser conhecer o sonhador, o conhecedor. Quem está sonhando afinal?

“Natural Great Perfection”, cap. 7

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Comentários

  • Fatima Fonseca: Texto muito bonito, principalmente quando diz…Uma gota...
  • Janaina Bueno: Gostaria muito de connhecer melhor o Budismo Tibetano, moro no...
  • luiz sergio: Onde podemos encontrar a plena lucidez,a plena atenção, o amor,...
  • Lucas: Maravilhoso esse texto, expressou todo meu pensamento sobre Deus! Como...
  • Cléber A. Vianna...: Sou dicipulo de BUDDHA, praticante quero fazer amigos...
  • luiz sergio: E se estamos a todo o momento com a atenção voltada para a...
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